NÃO VAI TER GOLPE, JÁ TEVE GOLPE! Por Sara Figueiredo Costa para a Revista Blimunda

                                                                                       






















Em  abril deste ano, a Câmara dos Deputados brasileira anunciava 
uma votação que poderia conduzir ao impeachment da Presidente da República, Dilma Rousseff, e à sua substituição no cargo sem recurso 
a eleições. O momento não era autónomo, no sentido em que não se desligava de um contexto complexo e anterior, as manifestações do Movimento Pelo Passe Livre, a contestação em torno da Copa do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos que decorreram este ano 
no Rio de Janeiro, os escândalos de corrupção no Governo, actual e anterior, uma eterna clivagem entre ricos e pobres que parece não permitir escapatória. O artista brasileiro Sama, residente em Portugal, foi um dos muitos que usou a sua voz e os recursos que compõem o 
seu trabalho para manifestar uma posição sobre o sucedido.

Nada a Temer 

 É um livrinho singelo no seu formato, trinta e seis páginas agrafadas, capa mole, impressão a duas cores, quase uma plaquete, em edição 

de autor. Lá dentro, duas bandas desenhadas (ou histórias em quadrinhos), vários cartoons e ilustrações, um conjunto de textos, tudo sobre os recentes acontecimentos no Brasil. Na capa, apenas o título, o nome do autor e, sobre um fundo cor-de-rosa, uma mão que estica o dedo do meio num gesto que não necessita de legendas. Os trabalhos que Sama aqui reúne não são inéditos, tendo circulado na internet, no blog do autor e na revistaVice, entre outros espaços, mas a sua compilação num volume único confere ao conjunto uma capacidade de refletir sobre os acontecimentos que têm marcado o Brasil nos últimos meses. Como explicou Sama à Blimunda,  «foi tudo muito corrido, com exceção de alguns cartoons que eu já tinha desde 2013, quando as grandes manifestações eclodiram no Brasil. A maior parte do material é mesmo muito fresca. A BD-reportagem, “Contra a Tarifa”, é de janeiro, sobre as manifestações do MPL ocorridas em dezembro de 2015 e janeiro deste ano, e “Foda-se, é Carnaval!” foi mesmo feita na altura do Carnaval deste ano. Ambas foram publicadas pela Revista Vice.



Alguns cartoons e textos foram notoriamente feitos para a publicação no calor dos recentes acontecimentos da política do Brasil dos últimos meses. Estava estarrecido com as notícias e queria fazer algo a respeito. Fui conferir o que já tinha feito e percebi que tinha imenso material. E olha que muita coisa ficou de fora, pois as informações visuais, como quadrinhos, charges e cartoons ocupam muitas páginas... Decidi então usar alguns textos de pessoas que percebem bem o Brasil. 
As colaborações chegaram praticamente a menos de uma semana do projecto ir para a gráfica.» Entre elas, contam-se textos de Carlos Tê, Luísa Sequeira, Joana Lopes e José Soeiro. Há ainda um texto de Noam Chomsky que, segundo Sama, «não foi participado ainda... Saquei-lhe o texto de uma declaração que ele fez na televisão americana.» Quanto às restantes participações, o autor sente-se agradecido: «Só tenho boas palavras para descrever isto que aconteceu... Há muito que eu e o Carlos Tê queríamos fazer alguma coisa juntos. Pensávamos que esta primeira colaboração seria algo para o cinema ou para a HQ, mas pela urgência dos factos acabou sendo este texto meio desabafo, meio declaração de amor ao Brasil, que ele conhece tão bem. Com o José Soeiro foi um aproveitamento de uma declaração dele na sua página do facebook. Entrei em contacto e perguntei-lhe se poderia usar o texto no projecto, expliquei-lhe o contexto e ele concordou, adaptámos o texto para a publicação e voilà! A querida Joana Lopes, que é um prodígio a escrever sobre política, foi convidada por mim e prontificou-se em dar seu parecer sobre o “freak show” dos parlamentares brasileiros a votarem o Impeachment da Presidente Dilma Rousseff. A cineasta e jornalista Luísa Sequeira, que conhece o Brasil como poucos brasileiros conhecem, ficou com a apresentação.

Sama e Carlos Tê na apresentação do Nada a Temer







»Uma das histórias de Nada  a Temer  apresenta-se como reportagem, acompanhando as manifestações do Movimento Passe Livre, em São Paulo, já no início deste ano. «Contra a Tarifa» segue as linhas de um trabalho jornalístico, apresentando o contexto geral, explicando os factos na origem do movimento (o aumento dos preços dos transportes públicos, decidido em dezembro de 2015 pelo Governador, pelo Prefeito da cidade e pelas empresas transportadoras), analisando as consequências destes factos no quotidiano da cidade e seguindo de perto algumas das muitas manifestações que ocuparam as ruas de São Paulo. Importa dizer que Sama não cumpre a regra da imparcialidade jornalística, não se abstendo de comentar o papel da polícia e da repressão, apropriando-se de partes do discurso dos manifestantes. Uma das mais interessantes linhas de leitura desta história é, por isso mesmo, a reflexão sobre essa ideia de imparcialidade e o modo como serve, ou não, os leitores. Que tipo de imparcialidade se pode almejar quando as notícias de maior circulação revelam, tantas vezes, fraca informação sobre as manifestações, generalizações inaceitáveis sobre o comportamento dos manifestantes, poucos dados sobre o negócio na origem do movimento? Perceber que papel pode ocupar uma banda desenhada como esta na informação a que todos temos direito, lendo-a à luz de outros movimentos de informação alternativa que estão, queiramos ou não, a mudar a face da informação e do modo como esta circula, pode ser essencial nos próximos tempos. Sama contou à Blimunda que, para além de teatro, estudou jornalismo «na Faculdade Hélio Alonso, no Rio de Janeiro, faz tempo, isso... Nunca tinha exercido, até agora. Será que irei precisar da minha carteira?» «Contra a Tarifa» é, portanto, o trabalho de um jornalista com formação, mas esse facto não faz Sama prescindir de uma opinião sobre os movimentos de informação que têm surgido, no Brasil como em muitos lugares do mundo, à margem dos média tradicionais. «Olha, gosto muito da iniciativa da Mídia Ninja, ainda mais considerando que as fontes oficiais no Brasil não são lá muito confiáveis. As minhas fontes são bem diversificadas, além de ser brasileiro e ir com regularidade ao Brasil, leio bastante e troco muito com outros profissionais da área de opinião e de jornalismo. Considero-me um autor de ficção, mas estou a ficar cada vez mais à vontade com os relatos de “não ficção” e biográficos. E confesso que os factos, não só no Brasil, mas de um modo geral, estão muito mais assombrosos do que qualquer ficção hoje em dia...» Ainda assim, o autor não confunde os planos da realidade e da ficção, clarificando que este livro não é, todo ele, uma peça informativa, mas insistindo na importância da informação dita alternativa numa altura em que os média perderam grande parte da sua independência, tão essencial: «Em algumas peças, expus metáforas e também caricaturas da realidade urbana brasileira, mas no seu contexto geral, NADA ATEMER é o mais sincero possível. Independentemente disto, acho que há que ter sempre cuidado com qualquer fonte de informação nesta era em que vivemos... Existe muita informação boa e ruim a circular por aí. Infelizmente, cada vez mais os meios de comunicação estão a serviço do capital privado, a publicitar pensamentos uniformizantes ao invés de informar ou noticiar. Recomendo a todos que, antes de aceitarem qualquer notícia de algum jornal, revista, TV,
pesquisem e tenham conhecimento de qual grupo este veículo emissor faz parte e a quais propósitos ele serve.



















»Sama tem desenvolvido um percurso consistente na Banda Desenhada, na ilustração e nos territórios adjacentes. De seu nome Eduardo Filipe, o autor publicou nas revistas Piauí, Argumento,  General, integrou antologias internacionais, teve o seu trabalho destacado em exposições e galerias e, em 2011, assinou o livro A BALADA DE JOHNNY FURACÃO. A versatilidade do seu traço é notória neste último livro, do detalhe necessário à configuração de um espaço e um contexto reconhecíveis na história «CONTRA  A TARIFA» à composição de pranchas mais livre, com espaço para a languidez das personagens respirar em todo o seu esplendor em «FODA-SE, É CARNAVAL!», passando pelos diferentes registos, colagens, experimentações nos cartoons e nas pequenas tiras que povoam NADA A TEMER. Usando para título do seu livro a frase-slogan apropriada por muitos milhares de pessoas para contestarem o novo presidente do Brasil, Sama coloca nestas páginas a sua voz e a de muitos outros que não aceitam o Impeachment, assumindo que o que aconteceu no Brasil foi um Golpe de Estado. Quando se anunciou a votação do Senado brasileiro, o movimento NÃO VAI TER GOLPE  espalhou mensagens pela internet, pelas ruas do Brasil e por alguns outros lugares do mundo onde brasileiros ou gente de outra nacionalidade se solidarizou com aqueles que, no Brasil, não queriam o resultado que acabou por ser o da votação. Depois de semanas agitadas, política e socialmente, aquilo que estes manifestantes não hesitaram em apelidar de golpe acabou por acontecer. De acordo com a visão de Sama, «o golpe já vinha ocorrendo há muito e ocorre a cada instante, no Brasil e no mundo. Ocorre nas pequenas acções, não só na oficialidade de uma troca de representante. O golpe vem sendo tramado nos bastidores, o que assistimos no palco do teatro político é só o resultado de um trabalho sujo de mais de meio século atrás. Sobre o futuro, qualquer previsão mais específica seria imprudente da minha parte ou de qualquer um, mas de um ponto de vista “macro” podemos detectar uma tendência mundial para uma fratura generalizada da Democracia, caso esta continue subjugada pela política neoliberal, imposta por um poder econômico amoral, amorfo e quase abstrato. Como citei antes, os atores estão aí a representar seus papéis: pastores, juízes, advogados, políticos, empresários, etc... Mais eficiente do que substituí-los, é combater aquilo que os corrompe, que nos corrompe a todos nós.» Já teve golpe, mas continua de pé a vontade de o interromper.

Sara Figueiredo Costa 


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Jean Wyllys nos representa!

 Sama, Jean Wyllys e Luísa Sequeira






















O célebre discurso, "I Have a Dream" do Martin Luther King faz 53 anos hoje... Luther King, ainda agora me representa, assim como o ex presidente do Uruguay, José Mujica, o Sub-Comandante Marcos, o Mandela etc... No Brasil, Jean Wyllys me representa, Eduardo Suplicy, Marcelo Freixo e alguns outros poucos da vida pública me representam... É sabido que a classe política do Brasil é uma das piores do planeta. Mas acreditem-me, ruim com eles, pior sem eles. Ainda há algum poder nas mãos dos cidadãos, mas tem que ser usado com cautela e sobriedade. A crise da representação política e a total descrença no sistema democrático é o cenário perfeito para a completa desumanização do indivíduo e para o domínio total das forças do poder privado sobre a sociedade. Melhorem a qualidade do vosso voto e sobrevivam para contar a história!